O governo francês vai assinar até ao final desta semana um decreto governamental sobre o seu roteiro energético até 2035. O Eliseu iniciou simultaneamente a sua ofensiva diplomática para levar a União Europeia a adotar como “limpa” a energia nuclear, da qual a França é a principal produtora e fornecedora.
Esta quarta-feira, num discurso em Antuérpia, Bélgica, o presidente francês explicou o que Paris defende para a estratégia europeia sobretudo em setores-chave da Economia.
No setor energético, Emmanuel Macron defendeu que a União Europeia necessita “criar uma verdadeira união, capaz de fornecer energia estável, previsível e competitiva à indústria“.
Palavras que se adaptam mais à produção nuclear do que à solar ou eólica, dependentes ambas de fenómenos atmosféricos que se anteveem cada vez mais incertos devido às alterações climáticas.
Paris está a pressionar Bruxelas, para que, nas metas da UE, a energia nuclear seja classificada como uma fonte de baixo carbono, juntamente com as energias renováveis.
Estratégia que poderá soçobrar face à realidade: as alterações climáticas criam igualmente desafios ao nuclear, uma vez que as temperaturas do ar e dos rios, durante as ondas de calor, comprometem cada vez mais os sistemas de refrigeração das centrais, resultando em paragens.
O presidente francês defendeu que a Europa deve tornar-se uma “potência independente“, como “única” solução para as ameaças económicas representadas pela China e pelos Estados Unidos e acabando com o que Macron diz ser a “fragmentação que enfraquece e ameaça humilhar a Europa“.
O desenvolvimento em estruturas de energias renováveis tem sido extremamente lento em França.
Em 2020 e em 2022, o país não atingiu a meta vinculativa da UE para a neutralidade carbónica e recusou-se a pagar a multa correspondente.
A França é o primeiro produtor mundial de energia nuclear. E, após resolver uma produção nuclear instável, ultrapassou a Suécia em 2023, como o maior exportador líquido de energia da Europa.
O país permanecia em 2024 como o segundo maior poluidor da UE em termos absolutos, atrás da Alemanha, apesar de Paris ter estabelecido o objetivo de obter neutralidade climática até 2050.
Cerca de 65 por cento da eletricidade em França é gerada pelos 56 reatores operacionais do país, e o executivo planeia construir entre seis e 14 centrais nucleares adicionais para atingir a neutralidade climática.
A França tem registado contudo problemas orçamentais persistentes, juntamente com as dramáticas reviravoltas da crise política que começou em Julho de 2024.
A empresa estatal de eletricidade, EDF, enfrenta incertezas quanto à sua capacidade de financiamento a longo prazo.
Um mercado único de energia poderia ajudar Paris a resolver problemas de caixa uma vez que iria exigir investimentos maciços em redes eléctricas e a criação de uma rede geral integrada, incluindo Portugal e Espanha.
Críticas Ibéricas
Bruxelas tem como meta que todos os Estados-membros tenham 15 por cento dos seus sistemas energéticos interligados à rede europeia mais ampla até 2023.
A Península Ibérica está atrasada. A sua quota de integração estagnou nos três por cento.
Em parte, a responsabilidade cabe a Paris, uma vez que os Pirinéus, no sul de França, são a via de ligação geográfica preferencial entre os dois países Ibéricos e o resto do continente europeu.
E França não se tem mostrado interessada em desenvolver as ligações, apesar destas irem facilitar a importação de energias renováveis, mais baratas e a maior produção ibérica do setor.
Política que tem motivado críticas de Madrid e de Lisboa.
Em maio de 2025, praticamente um mês após o ‘apagão’ que afetou Portugal e Espanha, os ministros da Energia de ambos os países enviaram uma carta ao comissário europeu da Energia, Dan Jorgensen, a pedir a sua intervenção junto de Paris.
Maria da Graça Carvalho, responsável pela pasta portuguesa, explicou depois aos jornalistas que “a França tem muita energia nuclear e não tem grande interesse em importar energia renovável mais barata da Península Ibérica“.
Mas a Comissão Europeia pode “pressionar” a França para cumprir as regras do mercado da eletricidade da UE, acrescentou.
Atenção Lisboa
A ministra portuguesa mostrava-se então também preocupada por os planos franceses até 2035 não incluírem a construção de duas interligações adicionais com Espanha através dos Pirenéus, apesar da operadora da rede francesa, RTE, ter estudado a sua viabilidade.
Graça Andrade Ramos – RTP